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“Os olhos de um animal têm o poder de falar uma grande linguagem.”
(Martin Buber)
Na história da humanidade a presença do animal não-humano é fortemente vista na literatura bem como em outras artes. Desde a mitologia antiga, seres híbridos fundem-se em corpo humano e não-humano. Por exemplo, na Grécia, o centauro, apresentava corpo de cavalo e tronco humano, o minotauro, corpo de homem e cabeça de touro, as sereias ou mulheres-ave mostravam parte do corpo mulher e patas de ave e, posteriormente, na mitologia nórdica e celta, transfiguraram-se em mulheres metade peixe.
A metáfora animal delineia grande parte das características do ser humano, seja pelo caminho da antropomorfização (atribuição de características humanas a seres não-humanos ou coisas) ou pela via da zoomorfização (características animais atribuídas a seres humanos, deuses ou coisas).
As fábulas conferem lugar à animalidade a fim de despertar no animal humano o reconhecimento de sua humanidade/animalidade em histórias moralizantes. Os bestiários, catálogos manuscritos realizados por monges católicos que reuniam informação sobre animais reais e fantásticos, acompanhados de mensagem moralizadora, eram relevantes na baixa Idade Média.
René Descartes valeu-se do racionalismo para argumentar a sua tese do animal-máquina. Darwin recuperou a questão da animalidade em seu discurso evolucionista, assim como os pensadores Georges Louis Leclerc (conde de Buffon), Jacob Johann von Uexküll, Gilles Deleuze e tantos outros.
A metáfora animal tem sido empregada no decorrer da literatura e das artes como um argumento edificador. Isso pode ser constatado nos exemplos a seguir:
Os Saltimbancos
A obra dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, no conto Os Músicos de Bremem, inspirou o musical infantil, Os saltimbancos, autoria do letrista italiano Sergio Bardotti e do músico argentino Luis Enríquez Bacalov. Esse musical mostra uma alegoria política, em que o burro representaria os trabalhadores do campo; a galinha, a classe operária; o cachorro, os militares e a gata, os artistas. O barão (o homem!), inimigo dos animais, é a personificação da elite, ou dos “detentores do meio de produção”.
Commedia dell’arte
Na Commedia dell’arte verifica-se outro exemplo perante a composição das personagens: uma característica de animais aos humanos. Na visão do dramaturgo italiano Dario Fo, a maioria das máscaras faz alusão aos animais e suas formas, evidenciando o aspecto zoomórfico em sua tipologia. Dessa maneira, um homem pode ter fisionomias de animais não-humanos, como um porco, um boi, um cão, entre outros, ressaltando sempre o aspecto psicológico caricatural do humano em relação à fisicalidade do animal não-humano.
O porco
No Brasil, o monólogo O porco, tradução de El cerdo, do diretor e dramaturgo espanhol Antonio Andres Lapeña, cujo texto original Strategie pour deux jambons é do francês Raymond Cousse, esteve em cartaz em São Paulo (2006), no Centro Cultural São Paulo, com direção de Antonio Januzelli e atuação de Henrique Schafer, mostra o depoimento de um porco na véspera do abate.
Como diz a crítica do jornalista Sergio Salvia Coelho, no jornal Folha de São Paulo: “Não há metáforas; porém, a crueza arquetípica da situação do porco cercado para a morte acaba remetendo ao que o público quiser: o holocausto, a condição humana e, por que não, a situação do ator que, no seu espaço mínimo, recria um sentido para a vida”. A reflexão sobre o espetáculo O porco, levantada por Coelho, remete às questões puramente humanas, sem sugerir qualquer importância moral pelo animal porco, representado por Schafer.
Cãocoisa e a coisa Homem
O espetáculo Cãocoisa e a coisa Homem, do grupo curitibano Ateliê de Criação Teatral (ACT), texto e direção de Aderbal Freire-Filho, protagonizado por Luís Melo, que esteve em cartaz no SESC Consolação, em São Paulo (2002), aborda a relação do ser humano com o cachorro.
O personagem principal é um homem que atravessa diversas fases da história, acompanhado por um anjo ou por um cão, interpretados pelos atores do ACT. Luís Melo resume o espetáculo: “O homem humanizado pelo cão. Ele é capaz de perceber o que é o verdadeiro amor, sem cobranças, através da lealdade do animal”. O cão mais uma vez é o exemplo para discutir a moralidade humana e como reflete Sergio Coelho em crítica no jornal Folha de São Paulo: “…atores podem dissecar a dinâmica do amor, com a higiene castrando o instinto, ou a solidão cosmopolita, na qual se finge que é de seu cachorro que se está falando”.
A cabra ou quem é Sylvia?
Em A cabra ou quem é Sylvia?, de Edward Albee, encenada no Teatro Vivo, em São Paulo, no ano de 2008, com direção de Jô Soares e atuações de José Wilker, Denise Del Vecchio, Gustavo Machado e Francarlos Reis, trata-se da história de Martin, um arquiteto de sucesso no ápice da carreira, que tem uma vida familiar exemplar, a amorosa esposa Stevie e um filho. No dia do seu aniversário, Martim revela que está apaixonado por Sylvia, entretanto, Sylvia é uma cabra.
Albee desafia os espectadores a questionar sua própria moral diante de tabus sociais, como a infidelidade, zoofilia, pedofilia e incesto. O âmago da questão de A cabra ou quem é Sylvia? está na exposição da perda da razão da sociedade contemporânea. O crítico de teatro Luiz Fernando Ramos argumenta no jornal Folha de São Paulo: “O amor não tem limites, nem a imaginação de Albee. O bode está na sala pronto para o sacrifício”.
Ainda aqui, o enfoque é o drama humano acerca da moralidade social em relação a tabus, a percepção da identidade feminina no contraste entre a mulher Stella e a cabra Sylvia e a natureza arbitrária de normas e convenções sociais sobrepondo a bestialidade de Martin ao seu desgosto em relação à homossexualidade do filho Billy.
Não há valoração moral em relação ao drama sofrido pela cabra Sylvia em seu suposto relacionamento “consensual” com Martim. Não se levanta a questão sobre atos sexuais cometidos contra animais, aos quais são atos forçados, de violência, diante da vulnerabilidade dos mesmos. Entretanto, os demais personagens da obra de Albee suscitam a exposição da miséria e do sofrimento humano.
A arte lida com o sensível, com a experiência. E o teatro, como propõe o fundador do teatro do oprimido, Augusto Boal, indica um caminho ou uma capacidade de se colocar no lugar do outro, ampliando a visão de mundo pela assimilação de novas possibilidades.
Citados esses exemplos, é importante afirmar a necessidade de reconstruir o sensível na sociedade para além dos paradigmas pré-estabelecidos. Nesses novos tempos, a arte tem como função aflorar essa sensibilidade para um reconhecimento de que o ser humano não se limita à cultura da “natureza” baseada em instintos crus, mas em outras possibilidades perceptivas que ampliem a sua consciência no tocante à consideração moral em relação ao próprio humano e ao não-humano, propiciando também a sua libertação e evolução mais abrangentes no contexto da bioética em relação às outras espécies.
Continua…
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Bibliografia:
COPSTEIN, Liège; SILVA, Denise A. Metáfora Animal e Especismo: Retórica do Poder no Contexto Pós-Moderno. Cadernos de Semiótica Aplicada (CASA) Capa v.12, n.1, UNESP, 2014.
GUIDA, Angela. A poética da crueldade: um olhar no humano e no não humano. Santos Dumont, UFMG, 2011.
M. AGUIRRE; A. STEBAN. Cuentos de La Mitología Vasca. Ediciones de la Torre, Madrid, 2006.
Folha ; Folha ; Folha ; ANDA
é atriz, diretora de teatro e arte-educadora. Fundadora integrante da e do projeto . Licenciada em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes e pós-graduada em Direção Teatral pela Escola Superior de Artes Célia Helena.
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