*Por Dr. Eric Slywitch
No Brasil, as análises sobre o teor de resíduos de agrotóxicos em alimentos são realizadas apenas em vegetais, o que traz a falsa impressão de que os alimentos de origem animal estão livres de contaminação. Para conhecermos o potencial nocivo do consumo de animais como fontes de agrotóxicos, temos que avaliar a literatura indexada internacional. Deixo as referências no final do texto.
Como parte dos agrotóxicos é altamente lipossolúvel, sua capacidade de infiltração em tecido gorduroso é elevada e eles percorrem rapidamente a cadeia alimentar após a pulverização em vegetais ou após a contaminação de fontes hídricas, inclusive do oceano. Essa difusão acontece com outros produtos também, como o mercúrio, e não é à toa que os níveis desse metal pesado no organismo de veganos são bem menores do que os encontrados no organismo de indivíduos que comem peixes.
Os estudos mostram que carne, peixes, laticínios e frutas são os principais alimentos contaminados com organoclorados (uma “família” de agrotóxicos). E os alimentos de origem animal são também muito mais contaminados que os vegetais por diversos outros tipos de agrotóxicos.
Um estudo realizado na Índia demonstrou que, dos alimentos consumidos numa dieta lactovegetariana, o leite era o mais contaminado com resíduos de agrotóxicos.
Os organoclorados têm degradação lenta. Um estudo feito em Hong Kong, entre 1993 e 1995, para avaliar o nível de organoclorados em amostras de leite de vaca, encontrou níveis que excediam os valores máximos permitidos, muito embora a China tivesse proibido o uso desses compostos em 1983, ou seja, dez anos antes da realização do estudo. No Brasil, essa realidade não é diferente. Diversos estudos comprovaram a contaminação de várias bacias hídricas. Mais de 10 anos depois da proibição do uso de DDT na natureza ainda se encontrou contaminação em todas as matrizes de galinhas poedeiras numa região do Rio de Janeiro, com comprometimento dos ovos utilizados para consumo humano. Animais alimentados com ração são mais expostos à contaminação por consumir a colheita proveniente de regiões com agricultura industrial que usa pesticidas em larga escala.
Estudos com vegetarianas demonstram que o seu leite materno está menos contaminado do que o de onívoras.
Os consumidores secundários e terciários da cadeia alimentar ficam mais expostos, pois, ao comerem outro animal, ingerem tudo o que se acumulou no seu tecido adiposo ao longo de toda a vida. O vegetariano estrito será exclusivamente consumidor primário.
A maior contaminação humana por organoclorados é proveniente do consumo de carne e derivados animais. Mais um estudo avaliou essa condição: as carnes e ovos foram os maiores responsáveis pela ingestão elevada de pesticidas organoclorados, que, no caso do Aldrin, chegava a 348% da ingestão diária aceitável na população geral (onívora) e a 146% a 183% nos vegetarianos.
Os autores, apesar desse dado, ainda defendem a ideia errônea de que, teoricamente, a dieta vegetariana teria maior probabilidade de contaminação com outros pesticidas devido ao consumo maior vegetais, mas isso não é demonstrado nos estudos.
Reduzir ou retirar os produtos de origem animal da alimentação é uma forma de reduzir a ingestão de agrotóxicos.
Fontes:
Dickman MD, Leung CK, Leong MK. Hong Kong male subfertility links to mercury in human hair and fish. Sci Total Environ 1998;214:165–74.
Battu RS, Singh B, Kang BK, Joia BS. Risk assessment through dietary intake of total diet contaminated with pesticide residues in Punjab, India, 1999-2002.Ecotoxicol Environ Saf. 2005 Sep;62(1):132-9. PubMed PMID: 15978299.
Singh PP, Chawla RP. Insecticide residues in total diet samples in Punjab, India. Sci Total Environ. 1988 Oct 15;76(2-3):139-46. PubMed PMID: 3238421.
Hall RH. A new threat to public health: organochlorines and food. Nutr Health.1992;8(1):33-43. Review. PubMed PMID: 1603449.
Flores, A.V., et al., Organoclorados: um problema de saúde pública. Ambiente & sociedade, 2004. 7: p. 111- 124.
Noren, K., Levels of organochlorine contaminants in human milk in relation to the dietary habits of the mothers. Acta Paediatr Scand, 1983. 72(6): p. 811-6.
Hall, R.H., A new threat to public health: organochlorines and food. Nutr Health, 1992. 8(1): p. 33-43.
DeVoto E, K.L., Heeschen W., Some dietary predictors of plasma organochlorine concentrations in an elderly German population. Arch Environ Health. 1998 Mar-Apr;53(2):147-55.
Van Audenhaege, M., et al., Impact of food consumption habits on the pesticide dietary intake: comparison between a French vegetarian and the general population. Food Addit Contam Part A Chem Anal Control Expo Risk Assess, 2009. 26(10): p. 1372-88
Fonte do artigo:
Imagens: divulgação
Obs: O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor.
Discussão2 Comentários
Mais uma razão para ser vegetariano, eu sou desde os 12 anos de idade…GO VEGAN!
Parabéns! E que cada vez mais os alimentos orgânicos sejam acessíveis a todos!